Carros autônomos estão mais distantes do que você imagina

Especialistas e entusiastas de tecnologia adoram bradar aos quatro ventos que os carros autônomos estão mais próximos do que você imagina. Mas não estão… E o motivo não é o acidente com o SUV autônomo da Uber, que atropelou fatalmente uma ciclista no Texas (EUA), na segunda (19).

Poderia elencar várias razões para a massificação do transporte autônomo ainda estar bem distante. Mas vou destacar apenas duas: legislativa (quem será responsabilizado em caso de acidentes?) e emocional (você deixaria a vida da sua família nas mãos de um computador?).

Antes de mais nada, vale ressaltar que 94% dos acidentes de trânsito – que matam 104 pessoas por dia no Brasil – são causados por falha humana. Ou seja, o transporte autônomo é mais seguro e vai reduzir exponencialmente o número de vítimas. Mas como vimos no caso do carro da UBER, não fará milagres…

Voltemos à questão legislativa. Quem responderá nas esferas civil e criminal em casos de acidentes? Nenhum país do mundo definiu essa questão, mesmo porque ela é extremamente complexa e controversa. A responsabilidade recairá na montadora ou desenvolvedora do carro? Na empresa que criou o software, que “de pau” no momento do acidente, ou ainda no fabricante dos sensores que falharam em detectar o pedestre à frente?

Dificilmente uma empresa assumirá esse ônus, que é bem alto e extremamente perigoso para as finanças corporativas. Imagina o estrago que um acidente pode causar às ações de uma empresa negociadas na Bolsa de Valores – pena que a UBER ainda não fez o IPO (Initial Public Offering) para termos números reais de comparação.

Você se responsabilizaria?

Como sempre, a tendência é que a responsabilidade recaia sobre o elo mais fraco da corrente. No caso, nós consumidores… O mais provável é que, ao comprar um carro autônomo no futuro, o proprietário assinará um termo de responsabilidade civil e criminal em relação ao veículo.

Algo como hoje acontece em casos envolvendo animais de estimação. Se o seu cachorro morder alguém, você é responsabilizado por isso. Mas em um carro autônomo todos são passageiros e, como tais, não podem ser responsabilizados por acidentes… Falei que o tema era controverso…

Outro detalhe curioso é que, desses 94% de erros humanos nos acidentes, muitas vezes a falha não é do motorista, mas sim do pedestre/ciclista (como parece ter sido o caso do acidente envolvendo o SUV da UBER). O autônomo está apto a ler faixas de pedestres, mas como reagir àqueles que atravessam fora da faixa? E àqueles que atravessam autoestradas? Como diria Garrincha, “é preciso combinar com os russos!”

Ah, os sensores detectam a presença humana e desviam a trajetória ou param o carro a tempo, você pode argumentar. Então por que não detectaram no caso da ciclista do Texas, em que o SUV estava a 64 km/h?

Confio mais em mim

Vamos para a questão emocional: você deixaria sua família à mercê de um sistema ultra complexo de sensores, softwares, antenas de GPS e hardwares? Quantas vezes você se deparou com a tela azul do Windows? E o seu celular de última geração, quantas vezes travou?

Para não sermos tão rigorosos e ficarmos só no campo dos softwares, vamos para peças menos complexas de um automóvel. Que tal airbags? Isso, aquelas bolsas que inflam para minimizar ferimentos e que foram lançadas há exatos 40 anos. Nada mais rudimentar para a tecnologia atual, certo?

Pois a fabricante japonesa Takata, uma referência de qualidade e tecnologia, até então, falhou por anos e ocasionou o maior recall da história automobilística. Ao todo, mais de 30 milhões de veículos foram vendidos com airbags defeituosos, que ocasionaram ao menos 16 mortes.

Estou falando de um equipamento simples lançado há 40 anos! Sou fã de tecnologia e estudo bastante sobre o tema. Talvez por isso tenha muita tranquilidade para responder a seguinte questão: Sabe quando eu vou embarcar para viajar com a minha família em um carro autônomo no Brasil? Provavelmente, só daqui uns 20 anos!